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MANIFESTO DA IO (INSTITUTING OTHERWISE)

Translated into spanish by Vasco T. Menezes.

  • Oct 08 2021
  • Meenakshi Thirukode
    is a curator based in New Delhi and can be found navigating the curatorial as a collaborative strategy towards knowledge production via her platform Instituting Otherwise.

Um Manifesto para um contexto muito específico. Trata-se de um manifesto que preparei para que compreendam o que me motiva e move. A ideia é que este manifesto também evolua e se deixe moldar por uma consciência colectiva. Portanto, façam o favor de acrescentar, questionar, concordar, discordar, confrontar e colaborar. Apresento-o com toda a abertura e vulnerabilidade, a partir da minha própria experiência subjectiva. Porque é isso que exige ocupar este contexto específico do Mundo Artístico Indiano – pelo menos, para mim. E é isso que também implica a actividade curatorial.

1. Nunca deixem que ninguém vos diga que não têm o poder de imaginar um futuro para vocês e para os outros.

2. Destruam as hierarquias.

3. Destruam a mentalidade superior-subalterno que só serve para criar hierarquias e fazer com que umas quantas pessoas controlem a narrativa – a VOSSA narrativa.

4. Não fiquem à espera que «grandes» artistas, galeristas ou instituições de curadoria vos entrem pelas vossas exposições pós Mestrado em Belas Artes e vos digam se vão ou não singrar no mundo artístico. Quem vos diz que controla a vossa prática NÃO a controla. Reivindiquem a vossa própria prática.

5. Dito isso – há imensas pessoas que vos vão tratar como iguais e que apoiarão o vosso crescimento. Encontrem-nas. Não as larguem. Algumas põem-se a escrever um manifesto à uma da manhã. E porque não? ;)

6. Redefinam o termo «PODER» – deixem que «PODER» seja capacitar tanto os outros como vocês. FAÇAM-NO A CADA MOMENTO DA VOSSA PRÁTICA– DOS 19 AOS 90 ANOS, ACONTEÇA O QUE ACONTECER.

7. Não se esqueçam de que o Patriarcado está bem vivo e se canaliza através de homens e mulheres. É bom que tenham isso presente. Reconheçam esse bicho e entendam como se modelou e remodelou dentro de vocês e dos outros. Caso contrário, nunca vão saber quem/o quê/quando/ onde estão a combater e por/contra/com quem.

8. Criem os vossos espaços. Não esperem por autorizações, financiamento ou a aprovação de quem quer que seja. Olhem à volta, percebam os espaços que ocupam, os espaços a que têm acesso, quem são os vossos pares, quem são os vossos amigos, quem é a vossa rede de apoio dentro e fora do mundo artístico. CRIEM. ACREDITEM QUE SÃO CAPAZES. E SAIBAM QUE NÃO O CONSEGUEM SOZINHOS. PRECISAMOS TODOS UNS DOS OUTROS.

9. O «SUCESSO» NÃO SE DEFINE POR ESTARMOS NUMA BIENAL DE VENEZA, NUMA TATE OU NUMA MANIFESTA. HÁ UMA SÉRIE DE OUTROS ESPAÇOS, LOCAIS E PESSOAS CAPAZES DE MOLDAR UMA PRÁTICA – REIMAGINEM AS TRAJECTÓRIAS DAS VOSSAS CARREIRAS COM ELES.

10. NÃO julguem as pessoas – os vossos pares – pelo que vêem exteriormente. Falem com elas. Construam uma relação – às vezes, descobrem que as pessoas que menos esperavam serão as que estarão convosco faça chuva ou sol ou caso haja algum galerista de espírito vingativo. E haverá outras vezes em que se vão desiludir. Mas façam SEMPRE esse juízo com base na vossa interacção INDIVIDUAL com essa pessoa. Se alguém vos falar de uma experiência ou interacção com uma dada pessoa, oiçam, tenham isso em consideração e depois DECIDAM PELA VOSSA PRÓPRIA CABEÇA.

11. NÃO PODEMOS SER TODOS AMIGOS DAS MESMAS PESSOAS E NÃO HÁ PROBLEMA. EU POSSO DAR-ME BEM COM UMA PESSOA E
VOCÊS NÃO. NÃO HÁ PROBLEMA. RESPEITEM AS ESCOLHAS UNS DOS OUTROS DESDE QUE ISSO NÃO PREJUDIQUE VERDADEIRAMENTE NINGUÉM.

12. NÃO SEJAM INTRIGUISTAS. NÃO ESPALHEM BOATOS.

13. NÃO SEJAM IMBECIS. NÃO SEJAM DÚPLICES.

14. Reconheçam que não têm o dom da perfeição.

15. Criem mais redes horizontais. Não precisamos de heróis. Precisamos de uma liderança fluida – em que um sem-número de pessoas se entreajuda a liderar e a ser liderado com base numa compreensão colectiva das forças e fraquezas de cada um.

16. Embora devam reconhecer as vossas fragilidades e trabalhar a partir delas, essa condição não tem de ser eterna. Mas talvez tenhamos de fazer escolhas, que nos levarão a uma vida de contradições, e teremos de lidar com isso a vida inteira. As coisas são como são.

17. É bom reconhecer que, a dada altura da vida, teremos de escolher entre ser ou não «carreiristas». Essa escolha alterará para sempre a nossa vida.

18. Defendam aquilo em que acreditam e comecem a berrá-lo bem alto JÁ. Para se manterem fiéis à vossa posição,precisam de estar sempre a aperfeiçoá-la sem nunca deixar de defender uma coisa em que acreditam.

19. Se alguém vos disser que a vossa carreira será afectada ou que sofrerão represálias a nível profissional por assumirem uma posição ou fazerem o vosso trabalho – se essa pessoa for um amigo preocupado, tenham isso em conta, percebam o que a motiva e procurem saber o que a leva a ter esses receios. Se for uma pessoa que vos esteja a intimidar, olhem-na nos olhos e mandem-na FODER-SE porque NÃO É ELA QUE CONTROLA A NARRATIVA DA VOSSA VIDA. SÃO VOCÊS. OBRIGADINHO. TCHAU. Continuem a fazer o vosso trabalho.

20. CONTINUEM A FAZER O QUE COMEÇARAM QUANDO TODA A ATENÇÃO E ESPECTÁCULO DESAPARECEM. SE QUEREM MESMO IR À LUTA, NÃO É NADA GLAMOROSO. É DIFÍCIL COMÓ CARAÇAS.

21. Não se arrependam de nada. Arrisquem.

22. CUIDEM DE VOCÊS E DOS OUTROS.

23. PARTILHEM, PARTILHEM, PARTILHEM. Trabalhamos num mundo artístico com pouquíssimos recursos para muito pouca gente. Se tiverem tido mais acesso do que outras pessoas – PARTILHEM o que aprenderam, coligiram, escreveram e pensaram.

24. NÃO PLAGIEM. NÃO SE PONHAM A GOOGLAR UMA COISA E A ESCREVER/FALAR/AGIR COMO SE FOSSEM UNS SABICHÕES SÓ PORQUE LERAM UMA ENTRADA DA WIKIPÉDIA. ISSO É UM PURO DESRESPEITO PELA VOSSA INTELIGÊNCIA E PELA DAS OUTRAS PESSOAS E SÓ PREJUDICA E MUITO A INTEGRIDADE DA VOSSA PRÁTICA E DA DAS OUTRAS PESSOAS.

25. SEJAM EMOTIVOS. AS EMOÇÕES SÃO FANTÁSTICAS. MOSTREM RAIVA, FÚRIA, ALEGRIA, ESPERANÇA, DESILUSÃO, FELICIDADE (SE FOR DA VERDADEIRA E NÃO DAQUELA FELICIDADE NEOLIBERAL E BRANCA COMO A CAL TIPO ANÚNCIOS DE PASTAS DE DENTES.)

26. A inveja é real. Não sejam essa pessoa e não se dêem com ela.

27. As mulheres têm de parar de insultar as outras mulheres do mundo artístico. PAREM.

28. Criem infra-estruturas que reconheçam o trabalho emocional. O trabalho emocional existe. É a mais importante, apagada e perdida de todas as histórias da arte e não precisamos de continuar a exercer e a ampliar a violência de a ignorar e de não reconhecer essa forma de trabalho.

29. RECONHEÇAM SEMPRE O MÉRITO A QUEM O MERECE.


30. Não perguntem às pessoas «então, o que é que andas a fazer ou em que é que estás a trabalhar?» como se fosse a única maneira de começar/continuar uma conversa com os vossos pares. Se estiverem a trabalhar numa coisa, dizem-vos. Se quiserem. Às vezes, não estamos a trabalhar em porra nenhuma e não há mal nisso. Não pressionem os vossos pares nem se pressionem para continuar a produzir. Não temos todos de estar sempre a «cumprir» produtividade. Ninguém deve nada a ninguém.

31. Perguntem antes se não querem chilar e ver de uma assentada uma série horrível ou brilhante para depois a analisar até dizer chega enquanto comem gelado. São esses os pares com quem vão criar os sonhos/ espaços/exposições/teorias mais sólidos, seja daqui a cinco anos, seja amanhã.

32. SONHEM. SONHEM ACORDADOS.

33. Improvisem e experimentem CONSTANTEMENTE. O mercado vai detestar-vos por isso e tentar abafarvos. Mas vai valer a pena.

34. ESTUDEM A HISTÓRIA DO MERCADO DA ARTE. A seguir, passa a fazer tudo sentido.

35. Tenham sempre um PLANO DE SAÍDA do mundo artístico. Vai ser a parte mais saudável da vossa relação com ele. Tudo o resto representará maioritariamente um trauma para vocês e para quem amam e com quem se preocupam verdadeiramente.

36. E percebam também que um plano de saída pode corresponder simplesmente a outra maneira de ver, sentir e estar no mesmíssimo lugar em que se encontram, só que de uma perspectiva diferente. Não há saídas nem chegadas, apenas percepção.

37. O Mundo Artístico Indiano tem de parar de cooptar o afrofuturismo (e, até certo ponto, Reza Negarestani) porque,sinceramente, é embaraçoso – embaraçoso utilizar esses discursos e fazer obras que se limitam a «ilustrar». Conseguimos perceber logo essa merda.
Além disso, os imaginários negros já evoluíram os respectivos discursos e aqui continuamos nós presos em 1990 e não percebo mesmo qual é a cena desta palermice do futurismo desi/sul-asiático saído da Índia. Isto é um comentário en passant. É uma coisa que me
faz tanta espécie que a ATIREI PARA AQUI.

38. Já agora, os indianos no contexto do Mundo Artístico Indiano não são «morenos». Pelo contrário, a maioria é «branca» comó caraças e é por isso que, logo para começar, estamos metidos nesta bela alhada. Hashtag colonialismo interiorizado, liberalismo neocolonial, classismo, castismo. Pf, bora lá reconhecer isso nos nossos futurismos, ok?

39. NÃO CONSTRUAM LEGADOS, CONSTRUAM SONHOS.

40. Às vezes, eles vão vencer. Mas as coisas não precisam de ser como eles querem. CONHEÇAM BEM OS VOSSOS INIMIGOS. E CONHEÇAM-SE A VOCÊS PRÓPRIOS AINDA MELHOR.

41. A PSICOTERAPIA DEVIA SER OBRIGATÓRIA.

42. Quando vos disserem que a vossa linguagem é demasiado «palavrosa» e que a devem «simplificar», mas que não vos estão a dizer para a «estupidificar» – podem crer que vos estão a pedir para a estupidificar. NÃO O FAÇAM.

43. Sermos snobes intelectuais é uma coisa, mas desrespeitar o nosso próprio crescimento, o nosso próprio raciocínio, a nossa evolução – no Mundo Artístico Indiano, 99% das vezes, é esse o passatempo preferido de quem exerce o poder.

44. O MUNDO ARTÍSTICO INDIANO VIVE DA MEDIOCRIDADE e da insegurança. SE OPTAREM PELA MEDIOCRIDADE, VÃO LONGE. ALIÁS, A MEDIOCRIDADE TRANSNACIONAL É O QUE ESTÁ A DAR, MEUS AMIGOS. O OCIDENTE, O ORIENTE E TUDO O QUE ESTÁ NO MEIO SÃO CÚMPLICES. CASO DECIDAM NÃO SER medíocres nem inseguros, se se valorizarem verdadeiramente e à vossa mente e alma, É MELHOR QUE O TAL PSICOTERAPEUTA SEJA MESMO BOM.

45. Se no fundo quiserem simplesmente ser sinceros e dar o vosso melhor RECONHECENDO QUE SÃO VULNERÁVEIS AO MESMO TEMPO QUE PARTICIPAM NO JOGO, vão tentar matar-se pelo menos três vezes A CADA dois anos. E se acharem que isso não é lá grande ideia, cometerão suicídio social – vão afastar por completo quem vos ama, vão «sair de cena» mesmo que o vosso trabalho ainda possua alguma vida, alguma alma. MAS NÃO. Se suicidem nem matem as amizades que vos definem realmente.

46. AINDA QUE NAVEGUEMOS PELAS CONTRADIÇÕES DO MUNDO ARTÍSTICO, FAÇAM PELO MENOS UMA COISA QUE PONHA EM RISCO TUDO O QUE PREZAM NO AMOR, NA VIDA, NO TRABALHO, NA FAMÍLIA E NAS AMIZADES. E depois vejam quem (incluindo vocês) é que não deu à sola.

47. As maiores batalhas que irão travar não serão contra o sistema ou contra um abuso de poder superior, serão contra vocês próprios. Cuidem-se.

48. Arranjem tempo para fazer uma coisa qualquer que tenham teorizado criticamente como sendo capitalista ou pós-capitalista – por exemplo, canções más de Bollywood numa discoteca banal num mega centro comercial. Aliás, vão também a centros comerciais, comam um bolinho de canela, olhem bem para as caras de felicidade, mesmo que seja uma felicidade «capitalista» e «fascista», e perguntem-se à vontade como será ser feliz assim. Enfiem-se mesmo na toca do lobo, nas entranhas do mal. De vez em quando,
precisamos todos de nos apaparicar um bocadinho só para que nunca subestimemos aquilo que enfrentamos.

49. ADOPTEM GATINHOS.

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Read the English version here



  • Image Caption
    Alexander Vantournhout, Screws, Photo Credits Bart Grietens

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