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ESTÁ DIFÍCIL CANTAR NO BRASIL

Na 34ª Bienal em São Paulo.

Com o título Faz escuro mais eu canto, retirado do poema Madrugada Camponesa (1962) do amazonense Thiago de Mello, a 34a Bienal de São Paulo inaugurou com um ano de atraso, em 4 de Setembro de 2021, por causa da Pandemia. Curada por Jacopo Crivelli Visconti, Paulo Miyada, Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Estévez, a exposição começou oficialmente em Fevereiro de 2018, na primeira etapa do que seria um processo de aberturas, performances e inserção de novas instalações no Pavilhão de Oscar Niemeyer, até a abertura principal, seis meses depois. A proposta da curadoria, em um movimento para expandir e adensar a visibilidade da mostra para além do Pavilhão principal, criou também uma rede com instituições pela cidade para formar uma programação ampliada em outras exposições. Algo que atrai como ideia mas que pouco alterou o formato tradicional concentrado em um só edifício e arredores. A cidade de São Paulo, sendo o pulmão financeiro do país, é atualmente a única capital brasileira com uma programação de arte realmente diversa e pulsante, mas o trânsito caótico e as longas distâncias tornam penosa e frustrante a tentativa de acompanhar a agenda cultural local quando se está apenas de visita. Portanto esta resenha crítica surge da experiência na exposição principal, no Parque do Ibirapuera.

No Pavilhão da Bienal, com a grande inauguração postergada em um ano, o que foi planejado como uma sequência viva de ações e montagens em progresso naturalmente teve que ser adaptado e revisado. Ainda assim, o projeto não mudou em seu objetivo principal de levar à público resultados de pesquisas curatoriais densas, entrelaçadas com diferentes campos artísticos, conceituais e culturais. Os muitos caminhos temáticos possíveis fez da exposição um percurso diverso mas por vezes enfadonho, como relataram pessoas do “público” não especializado - aquele que sempre sonhamos alcançar com nossos projetos de educação pela arte. No geral, a 34a Bienal de São Paulo tem boas obras agrupadas em constelações que partem de enunciados, espécie de intervenções curatoriais que pontuam a narrativa geral. Com esse propósito, por exemplo, o visitante se depara em um andar com um grande painel de retratos fotográficos do abolicionista negro norteamericano Frederick Douglass (1817-1895), e logo um monitor de TV exibindo o clássico Hiroshima mon Amour, de Alan Resnais; uma vitrine com delicadas cartas do historiador brasileiro Joel Rufino dos Santos para seu filho criança, enviadas da prisão quando foi preso político na década de 1970; um espaço dedicado à obra de Édouard Glissant em conexão à de Antonin Artaud, em um contraponto acadêmico e literário organizado pela pesquisadora Ana Kiffer; ou ainda textos e imagens sobre a metodologia de ensino revolucionária de Paulo Freire, educador respeitado em todo mundo, e demonizado pela direita do atual governo brasileiro. Estes e outros enunciados marcam ritmos na exposição e indicam direções conceituais-estéticas e políticas tomadas pela curadoria em uma trama de referências. Como afirmam os curadores, os enunciados surgem da “busca por uma linguagem para delinear os campos de força criados pelo encontro de obras produzidas em lugares e momentos distintos”.[1]

 

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Pretendendo levar uma reflexão política e também celebrar a arte como elemento transformador e necessário, o projeto da 34a Bienal tenta abordar com poesia uma situação de crise geral no Brasil e a partir dele. No entanto, em certos momentos o ambiente é melancólico, denso demais, em uma expografia que permite espaços livres mas é comprometida em vários pontos por interferências de sons de diferentes instalações que se mesclam. A crítica política, embora presente no statement da mostra, chega na exposição em um tom apaziguador, quase suave, variando em contundência de acordo com certas obras e alguns textos curatoriais. Questões como diversidade de gênero, etnias, culturas, identidades, lutas sociais e anti-coloniais estão expostas, em obras atuais e históricas interdsciplinares, como deve ser em uma mostra contemporânea de grande envergadura. Mas, por vezes a abordagem crítica do que está exposto é polida, como se poupasse a sensibilidade dos empresários do Conselho da Fundação Bienal comprometidos com o atual governo, incluindo o próprio presidente da instituição, o banqueiro José Olympio Pereira. 

Embora a tríade arte-capital-poder não seja nova na história, no Brasil de 2021 a falta de incentivos públicos está tornando a cultura totalmente dependente do capital privado e direto, portanto de uma elite que financia produções artísticas mas também apóia ou apoiou o atual governo federal que simpatiza com posturas fascistas. No caso brasileiro, desde 2018, quando foi eleito o atual presidente, o poder público boicota artistas e intelectuais considerados “de esquerda” em difamações, calúnias e vetos a financiamento para projetos culturais. Além da suspensão de fundos para as artes, cortes atingiram a pesquisa científica, ensino público, saúde pública e políticas de proteção a diferentes ecossistemas além da Amazônia; os índices sociais e ambientais tiveram expressiva piora, com novos milhões de desempregados, moradores de rua e miseráveis que reconduziram o país ao mapa mundial da fome da ONU. Além disso, a política negacionista diante da Pandemia vitimou fatalmente mais de 600 mil pessoas, e na esfera dos direitos humanos o aniquilamento dos povos originários aumentou, facilitado por proposital falta de fiscalização à invasão de terras indígenas por fazendeiros e grileiros de toda ordem.

A questão indígena, por certo, foi um dos aspectos mais promovidos nesta 34a Bienal, que teve a maior representação de artistas indígenas da história do evento: quatro estrangeiros e cinco brasileiros. Entre estes, Jaider Esbell, artista, escritor, ativista e educador, do estado de Roraima. Sua obra sensível e visualmente impactante faz referência à cultura Makuxi, e ganhou enorme repercussão no meio cultural nacional nos últimos três anos, sendo uma das estrelas desta Bienal. Sua história, porém, de certo modo se tornou uma triste analogia dos movimentos de capital, poder e consagração que regem o sistema da arte neoliberal, tão competitivo e mercantilista como qualquer outro. Há poucos anos, Esbell começou a tornar-se conhecido nos meios mais brancos da cultura brasileira, e suas pinturas e objetos alcançaram valores altíssimos. Recentemente, teve duas obras adquiridas pelo Centre Georges Pompidou, onde Paulo Miyada, co-curador da 34a Bienal, atua também como curador adjunto de arte latino americana. Dentre os colecionadores que  adquiriram as peças do artista está o presidente da Fundação Bienal de São Paulo.

 

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Apesar da ostensiva presença nde Jaider Esbell na mídia, nos eventos de arte e cultura, da circulação de sua obra e ideias em defesa da causa indígena e da inserção no sistema artístico do que ele chamava de arte contemporânea indígena como um posicionamento político, ele foi encontrado sem vida em um hotel do litoral paulista no dia 2 de Novembro de 2021. Pessoas próximas a ele comentam que a pressão extrativista do mundo branco, e da voracidade do capital que tanto combatia o fizeram escolher partir para outros mundos – algo que ainda está sob investigação. Uma dor para nós que ficamos, e que faz refletir sobre a perversa monetarização das identidades promovida pelo neoliberalismo nas artes.

Mesmo sem a fatalidade de Jaider Esbell, diante do quadro de crise política, econômica, ambiental e social no Brasil de hoje, o título Faz Escuro Mas eu Canto já soava inadequado, ainda que os curadores admitam que o tempo expandido de gestação da Bienal permitiu ajustes “não isentos de erros e desvios”. O enunciado da mostra, retirado de um verso, sugere um chamado de esperança, resistência e otimismo por meio de uma certa crença no artista como aquele que produz a arte enquanto uma dádiva, posta no mundo para ser ofertada como Potlatch [2], passível de gerar força transformadora. No entanto, a realidade mórbida brasileira fez com que otimismos – embora necessários para nossa sobrevivência – pareçam fora de lugar. De fato, está difícil cantar no Brasil apesar da arte e da sua dádiva.

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