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GALPÃO BELA MARÉ: TRAVESSIAS E SEDIMENTAÇÕES

Jean Carlos Azuos, Curador do Galpão Bela Maré, na favela Nova Holanda, Rio de Janeiro, faz um depoimento sobre o centro cultural fundado em 2011 - e hoje modelo de instituição artística fora das rotas hegemônicas na cidade.

  • Jun 09 2022
  • Jean Carlos Azuos
    é curador do Galpão Bela Maré, mestre em Artes pela Uerj e doutorando em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela Pontíficia Universidade Católica PUC, Rio de Janeiro.

Jean Carlos Azuos, Curador do Galpão Bela Maré, na favela Nova Holanda, Rio de Janeiro, faz um depoimento sobre o centro cultural fundado em 2011 - e hoje modelo de instituição artística fora das rotas hegemônicas na cidade. Seu estatuto estético, pedagógico e político transborda os sentidos triviais da arte e visa reconhecer as individualidades dos territórios populares colaborando na construção cidadã.

O ESPAÇO

Em  2011, uma antiga fábrica deu vida, espaço e sentido ao Galpão Bela  Maré,  localizado às margens da Avenida Brasil, em  Nova  Holanda, uma  das  16 favelas  que  compõem  o  Conjunto  de  Favelas  da  Maré no Rio de Janeiro.  O centro cultural representa e afirma  o  investimento institucional  do  Observatório  de  Favelas  do Rio de Janeiro  em parceria com a produtora Automatica, na construção de um lugar  alternativo e singular  no  cenário metropolitano  das  artes .

O espaço reúne em sua arquitetura um pequeno acervo, espaço de leitura com uma extensa estante articulada que é abrigo de centenas de livros sobre arte, história da arte e cultura geral; salas de atividades educativas; e um salão principal para exposições. Foi inaugurado com o objetivo de colaborar para a democratização e difusão de todos os tipos de expressões artísticas, desenvolvendo práticas e programações que colaboram para a construção e conformação de outros imaginários possíveis, na descentralização tanto dos equipamentos  culturais  quanto  das possibilidades  de fruição estética na cidade.

Em perspectiva, visamos reconhecer as individualidades dos territórios populares, de modo a efetivar a construção cidadã, bem como a usufruir de seus direitos plenos subtraindo juízos de valores hegemônicos, que  estigmatizam,  criminalizam e são omissos a estas realidades territoriais.

Conjuramos, portanto, ser um espaço que transborda os sentidos triviais da arte, expandindo práticas em torno do afeto e da acolhida, movimento vetor do nosso trabalho - na construção de caminhos para que diversos repertórios estéticos e culturais, dentro e fora das favelas, se cruzem, contaminem e fortaleçam juntos, espelhando referenciais contundentes ao nosso  trabalho, também nos projetando à cena da produção de arte do País.

TRAVESSIAS

Até 2017,  as grandes programações do espaço giravam em torno das importantes edições da exposição Travessias - Arte Contemporânea na Maré. Somadas, as mostras reuniram mais de 50 artistas de todo  o  Brasil  e  colocaram  a  Maré  e  seus habitantes no mapa das artes visuais brasileiras. Estabeleceram-se  outras perspectivas espaciais da arte na cidade,  criando  fluxos  contínuos de  pessoas  de todas as partes do Rio de Janeiro e além, rumo a Nova Holanda.

A partir de então, o Galpão está aberto regularmente  de  terça  a  sábado  e  recebe outras  tantas  programações e mostras que dão continuidade aos processos de forma ininterrupta. O ano de 2017 potencialmente registra em nossa trajetória a urgência por marcar  a  favela  como  espaço  possível  para  a arte ser e estare, assim, mobilizar encontros, protagonismos e dinâmicas até então pouco óbvias.

O trabalho  passou  a  construir  processos  cada  vez mais  consistentes  por  meio da arte, ascendendo modos de fazer, práticas curatoriais, elaborações experimentais  lideradas por pessoas que reverberam a diversidade e a composição de territórios populares, o que considero a grande  chave  para  o  desenvolvimento  complementar, e muito fundamental  ao  trabalho  que vem sendo construído até hoje.

Os processos de curadorias expositivas e de programação no Galpão Bela Maré, são segue desenhando práticas descentralizadas e implicadas politicamente. Convocam  experiências  constituídas no  Galpão  Bela Maré,  articulando movimentos de resiliência e criação diante da ordem do inconsciente em um país "cujas formações do inconsciente são exclusivamente europeias, brancas",[1] de modo a espelhar e reconhecer outras  múltiplas  presenças  em  nossa construção  cultural e produção artística.

Neste sentido, impulsionamos práticas curatoriais, educativas e experimentais e outras que mobilizam distintas narrativas, mitologias individuais, percursos e repertórios para constituir uma totalidade. A crença do trabalho não  está  a  serviço  do mero  vislumbre plástico, mas de  uma  universalidade  das possibilidades nas interlocuções com as expressões e linguagens,  em  paralelo  aos  diálogos institucionais,  com  o  território, as subjetividades e suas  recepções.

A insistência é uma importante ferramenta em metodologias que desafiam e contestam as construções de “superioridades”. Em síntese, partimos do  pressuposto  apresentado  por Diane  Lima: "O  principal  desafio  de  instaurar  uma  prática  curatorial  em  perspectiva passa  pela  compreensão  de  que  o  que  estamos  fazendo  é  política".[2]

 

SEDIMENTAÇÕES

A partir destas constatações, seguimos navegando por rotas e transviamentos de um trabalho essencialmente ancorado em escolhas para borrar as fronteiras que cerceiam as hibridações e invisibilizam  sujeitos/as e suas subjetividades, questões,  territórios periféricos e potências nos circuitos artísticos utópicos que ainda regem a contemporaneidade. 

Entender a presença como estabelecimento de políticas,  de forma que  possamos,  a  partir  destes indicadores, assumir nossa responsabilidade enquanto instituição em descentramento, mobilizando programações e interações amplas  nas  quais  os  corpos  urgentes, racializados, interditos e tantas outres possam usufruir de um  espaço  artístico  em  sua  plenitude,  com todas as ferramentas que este possa oferecer por meios estratégicos de suporte e visibilidade.

Anunciar a  partir  de  práticas e utopias institucionais,  novas  configurações   narrativo-visuais no processo de construção de outras cenas,  junto  aos  desejos  e  riscos  que  as armadilhas  da  arte  contemporânea  propõem, nos  parece  uma  aposta  política  no  sentido das interseções e  ações  estéticas  efetivas possíveis, pautadas por uma diversidade de subjetividades e territórios historicamente invisibilizados.

A criação e assentamento da Escola  Livre  de  Artes - ELÃ em 2019 nos revela um caminho precioso, dando conquista e sentido sempre desejados ao projeto do Galpão, ao estabelecer para além de todas as frentes aqui costuradas e narradas, uma perspectiva de encaminhar processos de educação e arte com mais capilaridade. 

Contribuindo para a cena, a escola já formou dezenas de pessoas artistas, territorializadas  em  espaços  periféricos e populares, e marcando a Bela Maré como território  de  encontro, troca,  proposição e diálogos sobre amplas narrativas,  diversidade de  corpos, vivências e plasticidades outras.

Nossas experiências práticas, conceituais e experimentais evidenciam compreensões e leituras contundentes de processos curatoriais, educacionais, programações e outras ações - campos conectados às questões decoloniais, dissidentes, multiplicadora  de  protagonismos,  que  apontam  para gestos de  resiliência e criação intrinsecamente políticas.

Aproximações com poéticas que refletem os repertórios  produzidos  por artistas  racializados, mulheres, pessoas trans,  periféricas,  como  ferramentas  "de  discussão  dos  problemas  enfrentados  por  essa  população  e  os  meios encontrados  para  a  superação  desses  obstáculos",[3] desdobra constantemente o  esforço  de  alongar  os  sentidos das imagens e narrativas dominantes. Percurso aplainado com cadência e cuidado ao longo de uma década, adensado e aprofundado nos últimos anos, que marca também a série de programações desenvolvidas na pandemia durante os anos de 2020 e 2021.

Assim,  instituímos  na  experiência a provocação de repensar  papéis  e  agentes, o circuito, as projeções, acreditando nas possibilidades de estabelecer um campo artístico e sua relação com a  cidade, de forma múltipla - mais negra e não  branca,  mais feminina  e plural  em  corpos, linguagens e  todas as aberturas  por  estas suscitadas. Temos, contudo, a centralidade de elaborar consciências coletivas por meio da arte de repensar, reimaginar, renarrar  espaço-tempo(s),  subjetividades, seus  conceitos e repertórios, apontando as pluralidades que nos identificam e compõem.

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